A infância não vai embora

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Toquei suas mãozinhas frias
E as esquentei
Estranhamente senti
Que aquele não era meu filho
Era eu que estava ali
Reconheci na terapia
Que a infância
Ainda me possuía

 

Sua presença lembrou a minha
A memória despertou
Meu eu criança estava ali
Brincando de esconde-esconde
Dentro de mim

 

O tempo é criança
Prega peça
Brinca com a gente
Ele repete a brincadeira toda hora
E nós, adultos, nunca entendemos
Nos entediamos,
Brigamos com o agora
Perto deles o presente chora

 

A infância é importante
Porque ela nunca vai embora
Morre o adolescente
Morre o adulto
E a infância?
Essa nunca sai da gente
Os idosos já descobriram
Que o tempo os transforma
Em crianças novamente


Onde mora o seu coração?

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Escrevo aqui sobre as nossas lutas diárias e legítimas, dessas que nos potencializam como ser humano.

Sentimos e ouvimos todos os dias um discurso desumano que nos força a “vencer” na vida, e os que não conseguem subir nesse pódio doentio e irreal,  , sentem-se fracassados, excluídos e deprimidos ainda que não o sejam. O poeta e promotor cultural Sérgio Vaz, que nasceu e vive entre os excluídos da periferia, escreveu: “eu vi vencedores nos olhos de muitos derrotados. Dignidade é tudo”.

Acho lindo ver alguém tentar, mesmo sem conseguir atingir o objetivo desejado.

            Somos pouco incentivados a celebrar o caminho e a caminhada, mas somos muito cobrados do resultado. E não qualquer resultado, é o “sucesso” o que esperam de nós. Porém o tentar e a energia investida nesse desejo que gera ação também precisam ser comemorados. “Tentei, mas não consegui”, você não ouvirá da boca dos gurus de autoajuda frases dessa categoria em suas ministrações.

Algumas tentativas e ações que nos propomos a realizar sangram a nossa alma, e só a força investida para realizá-la já seria digna de celebração. Ninguém realmente sabe o tamanho do esforço que fazemos para sair da inércia e agir, enfrentando os nossos monstros internos por amor a nós e às pessoas que dividem a vida com a gente. Por isso, repito: é lindo ver alguém tentar genuinamente!

É indescritível a alegria da pessoa que acompanha o seu amado(a) se dispor a enfrentar as suas demandas psíquicas mais difíceis pelo bem do seu relacionamento, da sua família. Esse enfrentamento é subjetivo, pode ser um trauma de dirigir um veículo, a resistência de se engajar numa psicoterapia, ou simplesmente praticar um esporte, fazer uma dieta. Quantas dificuldades nos compõem!

Freud escreveu que “o pensamento é o ensaio da ação”, mas percebemos que para muitas pessoas, a tendência é ficar apenas no ensaio do pensamento.

Nos entristecemos ao presenciarmos a letargia do outro. A estagnação nos angustia, (talvez porque denuncie a nossa paralisia também). Por desconhecermos toda a teia e a complexidade da vida psíquica que uma pessoa carrega dentro de si, percebemos como falta de amor essa falta de investimento do outro para com a gente. Às vezes é, mas nem sempre. E o nosso entristecer fica pior quando conseguimos enxergar no outro um potencial que ele mesmo não vê. É preciso aceitar nossa limitação sobre a vida do outro.

No final das contas, cada um do seu jeito, o que vai dizer o que somos ou o que deixamos de ser, serão os nossos pensamentos transformados em ação. E não necessariamente os “resultados” obtidos e exigidos socialmente.

Fica a pergunta: o que ou quem te impulsiona a agir? É aí que mora o seu coração. A ação fala do que o coração está cheio.


Um pai suficientemente bom

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Um bom pai é aquele que se vê e vê o mundo onde vive. É aquele que percebe que vive numa sociedade estruturada pelo patriarcalismo, e que também consegue compreender que existe um machismo dentro de si.

Neste sentido, nós, homens, sempre estivemos nessa zona de conforto. E após perceber e tentar mudar, começamos a lutar com a gente mesmo, porque é uma coisa de pele, enraizada, sabe? E como somos acostumados a falar e todo mundo nos ouvir, quase nunca nos colocamos no lugar de escuta, de aprendizado e de saber o que as mulheres têm a dizer sobre essa questão, pois são as maiores vítimas. A partir desse ouvir, podemos nos transformar, e reinventar um jeito de ser homem, de sermos menos tóxicos e mais interessantes.

Então, um bom pai é aquele que não tem medo de ir se desconstruindo, tentando se tornar um novo e diferente dos padrões de pai impostos socialmente.

Esse pai, se possível, precisar saber e conseguir dar banho no seu filho, trocar a fralda, cozinhar para ele e colocá-lo pra dormir rotineiramente.

E ser esse pai que não entrega o filho para a mãe sempre que a criança chora, e sim o pai que constrói a intimidade com os filhos. Intimidade de toque, de abraço e de acalento.

Nós, homens, temos muita dificuldade em mostrar esse tipo de afeto amoroso. Crescemos aprendendo que fazer isso é se tornar vulnerável e fraco.

Um bom pai é aquele que se analisa, que vai para a psicoterapia sem vergonha de dizer que tem muita coisa para trabalhar dentro dele e que, inclusive, todo esse trabalho interno, vai tornar mais leve a sua convivência com a família e com as pessoas ao seu redor.

Um bom pai é aquele que tenta ser criativo, usa seu tempo inventando coisas e conversas com seus filhos, e que não troca a sua presença pela interação hipnotizante de um celular ou televisão a todo tempo.

Ser pai é ter olhar.

Um bom pai é aquele que interage e adentra no mundo infantil de seu filho, mas que não é infantilizado na vida e nas decisões importantes que se deve tomar por eles.
Um bom pai é aquele que chora, e reconhece seus dias ruins. É aquele que diz “hoje o papai não tá legal, meu filho”.

Um bom pai é aquele que arca com as consequências de suas escolhas erradas e que tenta não projetar no outro as dificuldades e neuroses que são suas. E quando errar, que seu pedido de desculpas seja feito não só com palavras, mas também com mudança do comportamento errante.

Um bom pai é aquele que reconhece a dureza da vida, mas também percebe a ternura dela, e mostra para seus filhos que se pode sonhar, criar, ser fértil e inventar uma forma diferente de ser gente.

Não sei se alguém consegue ser esse bom pai. Mas vale a tentativa. Pois não se pode viver sem utopia.


Um lugar para voltar

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Um lugar para voltar não precisa ser, necessariamente, um espaço físico, mas sim um lugar simbólico. Esse lugar pode ser uma pessoa, uma memória, uma época em que se viveu. Hoje, em meio à pandemia, vivemos dias incertos e angustiantes. Não que antes não houvesse dor e dias difíceis, mas as dores são diferentes e sentidas subjetivamente conforme a nossa biografia e o período histórico em que vivemos.
Nesse momento, nossa alma clama por refúgio, por um lugar seguro para voltar, por um alguém que nos receba e nos escute de forma acolhedora.
A filósofa Hannah Arendt sabiamente nos ensinou que “toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história”. A escuta de nós, psicólogos, emerge da natureza, de ouvir e ajudar a interpretar uma história.
Que nós possamos ser casa e abrigo para alguém que está de passagem em nossas vidas. Todo mundo tem uma história para contar, mas são poucos os que estão dispostos a escutá-la.
É momento de nos ajudarmos. Coloco-me à disposição para te ouvir. Quem precisar, por favor, me procure no privado.

Dênis Athanázio


Con – Solar

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Existem noites lindas. Mas essa noite sobre a qual escrevo é  aquela onde não nos enxergamos e não nos bastamos. Nessa, precisamos de consolo e sol, isto é, de pessoas que ajude-nos com sua (luz) – cidez, (clareza) para percebemos melhor a realidade do momento. Essa luz nada mais faz por nós a não ser apontar  ou  clarear o que não percebíamos em meio ao sofrimento e ao pandemônio cotidiano. Após visto, o resto é com a gente. A luz só se responsabiliza pelo que revela a nós e não pelo que faremos ao que nos foi revelado.


Quem é você na pandemia?

Diante da escuta do analista, as frases flutuam consultório adentro: “Não me reconheci naquela situação”, “aquela pessoa ali, não era eu”. Eis um pressuposto humano carregado de angústia: a consciência de que existe um Eu estranho que nos habita e que nos escapa e, ainda, que esse Eu desconhecido aponta para uma indigesta verdade humana escrita por Freud: “não somos donos da nossa própria casa” (psíquica).

Por outro lado, esse mesmo Eu também revela uma energia criativa e uma coragem desconhecida, isto é, uma teimosa pulsão de vida que não nos faz desistir apesar dos pesares.

Em tempos incertos de pandemia, crise social e econômica, esse nosso Eu é descoberto mais agudamente, seja para a nossa desgraça ou alegria. O termo des-cobrir é apropriado, pois nos mostra que esse conteúdo estranho à nossa consciência já existia de alguma forma, porém estava coberto, escondido.

Em meio a esse pandemônio viral vemos de tudo: os que potencializam seu egoísmo ou a sua solidariedade, os defensores de teorias conspiratórias das mais absurdas e, ainda, pessoas que acreditavam ter uma saúde mental adequada, mas que estão “surtando” (com motivo) nesse novo mundo que se apresenta, ou melhor, esse que chega sem avisar.

Dentre os golpes desferidos pelo novo coronavírus aos seres humanos, um em especial nos força à reflexão de nossa história até aqui, sobre como a estamos vivendo. O tão criticado e também defendido isolamento social, nos forçou a voltar não apenas para a nossa casa física, mas também para onde moram nossas neuroses e nossas potências, isto é, nossa casa psíquica.

Simbolicamente, voltar para a casa pode ser uma experiência de voltar para si mesmo, de se haver com o que construiu dentro e fora de si, incluindo as escolhas que fez ou abandonou durante seu percurso de vida.

Esse estranho que reside em nós aparece nas demandas cotidianas, mas devido a uma correria desenfreada de atividades e agendas, talvez não houvéssemos percebido antes. Por isso que nesse tempo de quarentena, possivelmente nos percebemos mais ansiosos, mal humorados ou deprimidos. Estamos mais tempo juntos e fomos “obrigados” a conviver junto a um outro que também tem dentro de si esse Eu estranho sendo posto à prova.

Na China se constatou um aumento considerável de divórcios e, na cidade de São Paulo, o número de feminicídio dentro de casa dobrou, e como se não bastasse, especialistas temem aumentar também o número de abuso infantil nos lares brasileiros.

No final das contas, o vírus e a quarentena não implantaram a “centelha do mal” nessas pessoas, apenas potencializaram esses conteúdos dentro de cada um, seja nas suas perversidades, seja na sua incapacidade de suportar o outro. É muito difícil admitirmos que esse “mal” não está fora e sim dentro da gente.

O isolamento social e os desdobramentos inerentes a ele nos devolvem algumas perguntas custosas de se responder: está valendo a pena a escolha de dividir a minha vida na companhia dessa pessoa/família? Quem e como sou na relação familiar? Ou ainda, para os que optaram por morar sozinhos, estão apreciando essa vivência de solitude?

Nesses dias difíceis estou me colocando à disposição para a escuta online de amigos, pacientes e familiares. E mesmo que legítimas as preocupações ligadas à própria saúde e à falta de dinheiro, o que transborda na escuta é o questionamento e reflexão da vida que se tem vivido, e quem é esse estranho aos pouco revelado, que nos mostra uma face que lutamos para escondê-la.

Quem sou eu na pandemia e no caos instaurado? Sou o que estoca infinitos rolos de papel higiênico, ou sou aquele indignado que se solidariza e divide o que tem? Sou aquele que em tempos sombrios elabora ações criativas para ajudar a sua cidade, ou sou aquele irresponsável e acomodado que passa o dia compartilhando Fake News nas redes sociais? As perguntas e os questionamentos borbulham e ocupam apenas a cabeça dos mais sensíveis, dos mais perceptivos de si.

Sem dúvida, entramos em um novo mundo. Para um tempo mais criativo e humano, que tenhamos coragem de conviver/enfrentar o estranho que nos habita, seja no período de quarentena ou na vida toda. Existe beleza e esperança até no caos. Convoco Chaplin para nos elucidar: “Não devemos ter medo dos confrontos, até os planetas se chocam e do caos nascem as estrelas”.

 


Sombra e sol

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Em alguns momentos da vida chegamos como companhia oportuna, que é leve e fresca feito sombra em meio ao sol escaldante em nossa cabeça. Arejamos a alma do outro só com a nossa presença, assim como a sombra, que chega devagar e em silêncio até nos sossegar por dentro.
Porém, não se engane, em algum momento também somos pesar e pesadelo para quem convive com a gente. Podemos ser sol castigante na cabeça alheia. Para a maioria de nós, pode ser muito difícil admitirmos que somos uma companhia pesada, chata e não desejada em determinada situação ou tempo.
Espero (sem certeza nenhuma), que os meus dias de companhia estafante e densa, durem pouco para os que estão a minha volta, que me suportam. Desejo também que minha pequena sombra possa acomodar mais gente debaixo dela. Pois quando nasce alguém, também nasce uma sombra.

Não somos o que somos

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Pelas mãos do homem mais triste, contemplei seu paraíso pintado em tela.

O dançarino, com seu frevo frenético, me confessou que há muito tempo sua alma paralisara no passado.

O mais belo texto sobre a paz, foi escrito pelo indivíduo que mais infernos carregava dentro de si.

Ouvi a balada de amor mais comovente, composta por aquele que não conseguia amar.

A contradição nos constitui.  Afinal, não somos o que somos. Somos o que, na falta, desejamos ser.


Scooby-Doo e os nossos fantasmas

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Scooby-Doo é uma franquia de mídia americana criada por Joe Ruby e Ken Spears, e produzido por Hanna-Barbera. É o segundo desenho americano com maior número de temporadas de todos os tempos, perdendo apenas para Os Simpsons. O desenho é constituído por um grupo de quatro pessoas metidas a detetives, Fred, Velma, Daphne e Salsicha e um Dogue Alemão falante chamado Scooby-Doo, que viajam numa van chamada Máquina Mistério ajudando a investigar casos misteriosos. Visitam lugares inóspitos, casas mal-assombradas, parques abandonados, pântanos e ilhas, e na maioria das vezes são ameaçados por fantasmas, monstros, zumbis e vilões.
A fórmula dos episódios é sempre a mesma, mas isso não tira o brilho do programa: depois de uma cena de perseguição ou uma sequência musical, e por meio de algum plano ou ideia mirabolante, os vilões sempre são pegos. Estão sempre mascarados e suas verdadeiras identidades são reveladas ao tirarem suas máscaras e fantasias. Por trás delas há sempre o rosto de algum personagem já conhecido na história. Penso que um dos motivos para o longo sucesso do desenho diz respeito a como ele afeta diretamente nossa psiquê, principalmente nosso inconsciente, essa morada misteriosa de traumas, neuroses, fantasias.
O desenho aborda um sentimento que é parte constituinte da gênese humana: o medo. E quando sentimos medo, seja no momento ou depois da sua vivência, nos vem perguntas que literalmente não querem calar: “Esses fantasmas (psíquicos) que nos assolam realmente existem?” e “quem são eles?”. Essa é uma das perguntas que Scooby e os aspirantes a detetive tentam a todo tempo responder.
Esses fantasmas e monstros que nos rodeiam psiquicamente podem ser conteúdos neuróticos e traumáticos que nascem da fuga e incapacidade que temos em lidar com essa demanda tão sofrida, que muitas vezes não conseguimos nem simbolizar/entender no momento em que estamos passando. Fazendo uma alegoria sobre esses conteúdos, é mais ou menos quando em todo episódio, a turma (e principalmente Scooby e Salsicha) correm de medo ao se deparar com um fantasma ou monstro que aparecem para assustá-los, tentando expulsá-los do local de investigação. O medo os impulsiona a procurar um lugar seguro e muitas vezes necessário. Da mesma forma, o nosso medo também não nos ajuda a descobrir quem é ele ou como é esse inimigo que nos assusta. Se pararmos por aí, viveremos eternamente apenas fugindo de algo que não sabemos o que é e o que existe para além dele. Por mais que realmente acho importante e sábio entendermos que temos nossos limites pessoais, inerentes à vida, que devem ser respeitados, penso não ser muito saudável se, em todas as situações, pararmos ou fugirmos quando sentimos medo, pois do contrário, nossa bússola existencial sempre apontará em direção ao nosso medo e a tendência de ficarmos paralisados na vida é muito grande.
Psicanaliticamente falando, quando fugimos a todo tempo de nossas neuroses e traumas sem tentar nos analisar ou trabalhá-los, o monstro não morre, ele ressuscita como um zumbi e vai migrando dentro da gente com outros disfarces, caras e contextos “novos”, mas feito da mesma matéria anterior.
É interessante que a turma de investigadores (principalmente liderada pela personagem Velma), após passar pelo primeiro impacto de se ver diante de um ente “sobrenatural” e perigoso, começa a pensar sobre o monstro, isto é, sobre seus fantasmas internos, para o analisarem “mais de perto”. Este é o começo do enfrentamento psíquico, quando voltamos nossa atenção para os conteúdos tão sofríveis que assolam nosso cotidiano.
Esse enfrentamento pode ser doloroso porque geralmente é muito difícil admitirmos que possuímos pensamentos e desejos antiéticos, desprezíveis e condenáveis. Mesmo quando o trauma foi desumanamente “imposto” a nós e tornando-nos suas vítimas, pelo bem da nossa mínima saúde mental, teremos que tentar, aos poucos, parar de fugir e olhar bem nos olhos desses monstros.
O desenho nos ensina também que, na maioria das vezes em nossa vida, as criaturas assustadoras não são tão grandes quando olhamos mais de perto e que, inclusive, não são seres abomináveis, são apenas impostores que já vimos por aí e que tentam nos enganar. E o impostor por sua vez pode ser nós mesmos.
Quando buscamos conhecer aos poucos nossos fantasmas cotidianos (principalmente através de uma psicoterapia), podemos nos sentir autorizados e mais preparados para nos responsabilizarmos pelo que sentimos, desejamos e agimos. É daí que nasce a chamada ética do desejo citada na teoria psicanalítica, que nada mais é do uma postura ética frente ao que sou e como tentarei trabalhar esse (eu) estranho que afeta diretamente a mim e às pessoas ao meu redor.
Essa responsabilidade é redentora e pesada ao mesmo tempo, como o Tio Ben ensinou ao seu sobrinho Peter Parker em o Homem-Aranha: “Com grandes poderes vem grandes responsabilidades”. Essa responsabilidade é a trágica beleza de quem busca trilhar o misterioso caminho de se conhecer e de se saber quem se é, sem a menor garantia do que lhe acontecerá nessa jornada.
As assombrações e os monstros psíquicos de uma forma ou de outra são reais mesmo quando tentamos não vê-los. Mas Scooby-Doo e seus amigos talvez nos ensinem uma última e importante lição: Fantasmas não vão embora da nossa casa quando fugimos ou quando os expulsamos. Eles só nos deixam quando olhamos bem no fundo dos seus olhos e os convencemos a partirem.

Boa morte

 

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Por mais que tentemos, não há como fugir, pois de alguma forma a vida nos pega, nos encontra. Faz-se necessário vivenciarmos a passagem e a elaboração dos lutos cotidianos da nossa história. É claro que é uma tarefa árdua e não linear, pois os nossos sentimentos não funcionam como as regras gramaticais. Sentimos que o ponto final nunca é o final da história e que a vírgula nem sempre significa uma pequena pausa para respirar.
A grande questão é que sem esse enfrentamento e elaboração desses lutos, corremos o risco de estagnarmos em algum lugar do tempo, esperando a volta de algo que nem existe mais. É como peneirar o vento, ou correr em volta do próprio rabo.
Algumas pessoas paralisam suas vidas decidindo apenas morar no tempo cronológico da saudade, pois a saudade é por definição, o amor insistente que o presente sente pelo passado. O passado pode ser revisitado, ou servir como uma casa de passagem, mas pode ser perigoso quando passa a ser uma moradia fixa em nossa mente, pois a vida pulsa e está sempre em movimento até mesmo quando nos sentimos paralisados psiquicamente.
Agora, se passarmos (cada um a seu modo) por esses lutos e lutas existenciais, talvez consigamos mudar de endereço, renascer, reconstruir e fertilizar novas ideias, novos relacionamentos e outros sentidos de vida. Nem toda morte é ruim, e tudo o que fertiliza vem de algo que já morreu. Essa é a boa morte, aquela que nos faz parir outros futuros.